Pierre Levy

“A fusão das telecomunicações, da informática, da imprensa, da edição, da televisão, do cinema e dos jogos eletrônicos em uma indústria unificada da multimídia é o aspecto da revolução digital que mais se enfatiza, mas não é o único, nem talvez o mais importante.

Além das repercussões comerciais, há aspectos civilizatórios ligados ao surgimento da multimídia: novas estruturas de comunicação, de regulação e de cooperação, linguagens e técnicas intelectuais inéditas, modificação das relações de tempo e espaço etc. a forma e o conteúdo do ciberespaço ainda são especialmente indeterminados. Não existe nenhum determinismo tecnológico ou econômico muito claro em relação ao assunto, pelo menos até o momento. Escolhas políticas e culturais fundamentais abrem-se diante dos governos, dos grandes atores econômicos, dos cidadãos. Se trata de raciocinar em termos de projeto: com que objetivos queremos desenvolver as redes digitais de comunicação interativa? Na verdade, as decisões técnicas, a adoção de normas e regulamentos, as políticas tarifárias contribuirão para modelar os equipamentos coletivos da sensibilidade, da inteligência e da coordenação que formarão no futuro a infraestrutura de uma civilização mundializada.

O desenvolvimento dos novos instrumentos de comunicação inscreve-se em uma mutação de grande alcance, à qual ele impulsiona, mas que o ultrapassa. Em poucas palavras: voltamos a ser nômades. Mexer-se não é mais apenas deslocar-se de um ponto a outro da superfície terrestre, mas atravessar universos de problemas, mundos vividos, paisagens dos sentidos. Essas derivas nas texturas da humanidade podem recortar as trajetórias balizadas dos circuitos de comunicação e de transporte, mas as navegações transversais, heterogêneas dos novos nômades exploram outro espaço. Somos imigrantes da subjetividade.

Imprevisível, arriscada essa situação assemelha-se a uma descida em corredeiras desconhecidas. Não só viajamos entre as paisagens exteriores da técnica, da economia, da civilização, pois caso se tratasse apenas de passar de uma cultura a outra, ainda teríamos exemplos, referências históricas. Mas passamos de uma humanidade a outra. Outra humanidade que não apenas permanece obscura, indeterminada, mas que até mesmo nos recusamos a interrogar, que ainda não aceitamos examinar.

O espaço do novo nomadismo não é o território geográfico, nem o das instituições ou das nações, mas um espaço invisível de conhecimentos, saberes, potências de pensamento em que brotam e se transforma qualidades do ser, maneiras de constituir a sociedade. Não os organogramas do poder, nem as fronteiras das disciplinas, tampouco as estatísticas dos comerciantes, mas o espaço qualitativo, dinâmico, vivo da humanidade em vias de se autoinventar, produzindo seu mundo.

As novas técnicas de comunicação por mundos virtuais põem em novas bases os problema do laço social. Em suma, a hominização, o processo de surgimento do gênero humano, não terminou, acelera-se de maneira brutal. Se nos engajarmos na via da inteligência coletiva, progressivamente inventaremos técnicas, sistemas de signos, formas de organização social e de regulação que nos permitirão pensar em conjunto, concentrar nossas forças intelectuais e espirituais, multiplicar nossa imaginação e experiência, negociar em tempo real e em qualquer escala soluções práticas para os problemas que estão diante de nós. A inteligência coletiva visa menos ao domínio de si por intermédio da comunidade e mais ao abandono essencial da idéia de identidade, dos mecanismos de dominação e de desencadeamento de conflitos, ao desbloqueio da comunicação confiscada, á volta da troca de pensamentos, forçados até agora ao isolamento.

O problema da inteligência coletiva é descobrir um além da escrita, um além da linguagem tal que o tratamento da informação seja distribuído e coordenado por toda parte, que não seja mais o apanágio de órgãos sociais separados, mas se integre naturalmente, pelo contrário, a todas atividades humanas, volte às mãos de cada um. A escrita possibilitou um acréscimo de eficácia de comunicação e de organização dos grupos humanos, mas ao preço de uma divisão da sociedade entre a máquina burocrática e as pessoas ‘administradas’ pelo documento escrito. A nova dimensão da comunicação, seja hipertexto ou hiper-idioma, deve permitir compartilhar os conhecimentos e apontá-los uns para os outros.”

Pierre Levy, in A Inteligência Coletiva.

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